Tradução de carne ou queijo?
Publicado por: Vagner Bandeira em Tradução
Estão deixando a tradução virar pastel. Aquele mesmo pastel que você pede, fica pronto na hora, e paga menos de R$ 2,00. Os “pasteleiros” da tradução estão por toda parte e, sem a mínima noção do que fazem, vão vendendo seus pastéis e deturpando a imagem da tradução como ofício.
Diferente de um professor de idioma, que requer proficiência apenas na língua ensinada, o tradutor precisa ser proficiente tanto na língua da qual como para a qual traduz, com responsabilidade de entregar textos fiéis à língua de partida, mas escritos na forma da língua de chegada. Quem não atua assim NÃO é tradutor.
Os “pasteleiros” inventaram um tipo de “revisor” para usar de muleta quando o “pastel” queima. Em outros termos, o “revisor” vai corrigindo e limpando as cacas do “tradutor”. O pior é que muitas vezes esse “revisor” conhece bem menos que o “tradutor”. Alguns simplesmente rodam um corretor ortográfico que, por exemplo, para “O Colégio São Bento” sugere “O Colégio É Bento”. Olhe a graxa de pastel que vai sair.
Não há dúvida de que qualquer tradução requer uma boa revisão, e ponto. De um lado, deslizes – não erros crassos – são inevitáveis; de outro, se é o tradutor ou o revisor quem deve revisar a tradução, isso é uma questão de opção. O que NÃO deve ocorrer é atribuir ao revisor a responsabilidade que compete tão somente ao revisor.
Revisor (de verdade) deve conhecer tanto quanto ou mais que o tradutor, pois só assim poderá encontrar e corrigir possíveis erros relativos à redação, digitação, tipografia ou ainda relativos ao conteúdo. O trabalho do revisor é tão difícil quanto o do tradutor, por isso é uma opção mais cara.
Se o tradutor é de fato um tradutor, não um “pasteleiro”, ele pode fazer sua tradução, se distanciar dela por algum tempo, e depois revisá-la. Mesmo assim, erros corriqueiros podem passar despercebidos. Para isso existem os conferentes.
O conferente é alguém com conhecimento na língua de chegada e, com olhos de águia, vai colocando aquela vírgula esquecida, a crase que faltou, um número digitado errado, um erro ortográfico e deslizes semelhantes.
Acabei de revisar um “pastel especial”, um daqueles monstruosos e cheguei à conclusão de que não vou revisar mais “pastel”, só a minha própria tradução ou a de um verdadeiro tradutor.
“Pasteleiros”, get real (caiam na real)! Nem com o advento das mais modernas tecnologias, a tradução jamais será um pastel.
Deixo aberto para seus comentários e experiências semelhantes.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2008 às 19:28
Olá, tenho 28 anos e estou no segundo ano do curso de tradutor-intérprete (Unasp- Campus Engenheiro Coelho)e gostaria de tirar duas dúvidas:
Observei que há uma tendência geral de alunos de cursos de tradução se concentrarem no estudo do inglês e do espanhol(na minha escola do primeiro ao último ano, há quase 100% de unanimidade, exceto eu que pretendo lidar com o japonês, além do inglês).
Logo, prevejo uma futura massa de tradutores desempregados devido a esse tipo de saturação de mercado… minhas 2 perguntas são:
Minha perspectiva está correta? se sim,tal fenômeno ainda provocaria a desvalorização(da remuneração) da tradução envolvendo estas duas línguas e uma consequente supervalorização de outros idiomas menos comuns, como o japonês por exemplo, cujo interesse vem crescendo após a febre dos animes?
Por favor aguardo resposta.
Muito Obrigado.
sábado, 24 de novembro de 2007 às 17:59
pois é…eu leio livros (geralmente romances) que têm muuuitos erros de português..
No Livro Hannibal, de Thomas Harris, mesmo, diz:
” O Dr.Lecter nao gosta de lamentar, mas lamenta ESTAR DEIXANDO a Italia.”
Se já nao bastassem os atendentes de telemarketing..
…Meu prof.Disse que isso é consequencia, as vezes, de uma traduçao mal paga…
:S
ou seja, desses pasteleiros…rsrs
quarta-feira, 14 de novembro de 2007 às 07:43
A responsabilidade da tradução é do tradutor. Revisores ortográficos, tradutores automáticos, dicionários eletrônicos, memórias de tradução, Google e outras ferramentas disponíveis na Internet são exatamente isso, ferramentas, que não substituem o tradutor e seu conhecimento acumulado.
Um médico não pode depender de exames laboratoriais para tratar de um paciente. Tradutores, da mesma forma, não podem pensar que essas ferramentas farão a tradução por eles. Acho, no entanto, saudável, que estejamos sempre atualizados com as ferramentas disponíveis. Elas agilizam a tradução, sem dúvida.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007 às 15:02
Infelizmente profissionais mal preparados existem em qualquer lugar. Não acho que um professor de língua estrangeira deva conhecer apenas a língua que ensina… Assim como o tradutor (talvez com um pouco menos de aperfeiçoamento) o professor (de inglês, por exemplo), na minha opinião, deve sim estar pronto para eventualmente esclarecer dúvidas de alunos da língua pátria, o que exige estudo de ambos os idiomas. É claro que para o ensino o mais correto é focar, no exemplo, o inglês, mas não tem como fugir do primeiro idioma que se aprende.
Ter experiência como conferente é um passo importante pra quem sonha em, um dia, tornar-se tradutor. O contato diário com os diversos assuntos de traduções, do inglês pro português e vice-versa, proporciona um conhecimento valioso e, sem dúvida, quem tem essa oportunidade terá menos chances de vender pastéis.
segunda-feira, 29 de outubro de 2007 às 19:03
Concordo plenamente com o artigo.
Um “revisor” pasteleiro uma vez devolveu meu documento, sugerindo alterações no “cabeçário”!?!?!
O revisor deve ter mais conhecimento que o tradutor, mas isso não retira a responsabilidade do tradutor pelo trabalho. Como nem sempre o revisor com conhecimento suficiente está disponível, minha sugestão é que os tradutores tenham mais cuidado com o que escrevem, para não correrem o risco de cair na pastelaria.
O tradutor TEM SIM que revisar seu documento, passar corretor ortográfico (no mínimo!) e ter o carinho de formatar sua tradução, mesmo que trabalhe para agências de tradução.
Cabe relembrar que as agências de tradução são os clientes dos tradutores free-lancer, o que nem sempre é levado em consideração.