Traduzir ou não traduzir: eis de novo a questão
Publicado por: Diego Alfaro em Tradução
“Durante o round, o staff prescreveu um dripping de insulina e ordenou um check up duas horas depois.” Em bom português… é isso mesmo! Ou, pelo menos, essa é a melhor maneira de se fazer entender no meio médico. Aí começam as dificuldades na tradução de textos em medicina: o uso de termos em línguas estrangeiras – particularmente a inglesa – é tão corriqueiro, que se quiséssemos substituir round por “ronda”, staff por “chefe de equipe” e dripping por “gotejamento”, forçaríamos o médico-leitor a “destraduzir” boa parte do texto para conseguir compreendê-lo. Por outro lado, a manutenção desses termos no original pode tornar o texto ininteligível para leigos, estudantes no início do curso ou qualquer pessoa com pouco domínio da língua estrangeira. Como proceder, então?
A medicina é um campo de conhecimentos em acelerado desenvolvimento científico e tecnológico, incorporando, a cada ano, um grande número de novos termos ao léxico médico. Devido à necessidade de rápida atualização de seu conhecimento, o profissional da saúde os aprende diretamente no idioma original, imediatamente após sua publicação, e assim os mantém na prática diária, inclusive em congressos e artigos escritos em português.
Somente mais tarde, e muito timidamente, começam a surgir as primeiras tentativas de tradução desses termos, e aqui ocorrem novos problemas: para muitas das palavras, é difícil encontrar correspondentes apropriados em português, dificultando a tradução; esta é freqüentemente realizada por estudantes de medicina sem experiência em tradução e com pouco domínio do idioma de origem, e principalmente, do de chegada. Ou então por tradutores profissionais não familiarizados com o vocabulário e a prática médica, resultando em sérias distorções de significado.
Os tradutores amadores raramente realizam uma boa pesquisa de termos já traduzidos anteriormente na literatura médica, o que provoca grande heterogeneidade de traduções a cada publicação. Por fim, a tradução médica é bastante mal remunerada, o que se reflete inevitavelmente em sua qualidade. Todas essas dificuldades podem explicar a resistência, entre os médicos, em adotar termos traduzidos e sua incorporação consensual e definitiva no jargão da profissão.
Entretanto, embora quase todos os nossos conhecimentos médicos sejam importados, pouco adaptados à realidade brasileira, a adoção de algumas medidas simples pode preservar, ao menos, a língua na qual os praticamos. A primeira consiste em perder o pudor e traduzir todos os termos estrangeiros, desde a primeira publicação em português, evitando a perpetuação de seu uso no idioma de origem.
Uma opção seria, em determinados casos, manter o original entre parênteses para auxiliar a compreensão do leitor. É fundamental que tradutores amadores busquem assessoria lingüística com profissionais de tradução, para evitar certas armadilhas clássicas e submeter o texto a uma boa revisão. Já os tradutores profissionais sem formação médica devem manter uma ampla rede de contatos com profissionais da saúde, solucionando dúvidas e debatendo significados. Este conselho também é válido para tradutores com formação médica, pois o campo de conhecimentos na medicina é tão vasto que é impossível, para qualquer pessoa, estar familiarizada com todo o léxico.
Deve-se sempre realizar uma extensa pesquisa bibliográfica em busca de termos já traduzidos em publicações anteriores, procurando-se manter a escolha do primeiro tradutor (desde que esta seja suficientemente sensata), pois a unificação das traduções facilita a compreensão e acelera a incorporação do termo ao jargão. Este conceito, básico em tradução, é muitas vezes negligenciado por tradutores amadores. Finalmente, editoras e empresas de tradução, se estiverem comprometidas com o produto que oferecem, devem remunerar adequadamente os profissionais que contratam; baixos pagamentos geram trabalhos feitos às pressas, comprometendo o resultado final. Se observadas, estas medidas deverão elevar a qualidade da tradução de textos médicos, que deverá correr… sem stress.
Diego Alfaro é médico formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com pós-graduação em Acupuntura. Atua como tradutor e intérprete trilingüe em diversas áreas, tendo participado da tradução e revisão técnica de artigos e livros-texto referência no ensino médico, além de ramos da indústria farmacêutica e clientes particulares. Nas horas vagas é violinista, para desespero de seus vizinhos. E-mail: diego.alfaro@gmail.com



terça-feira, 15 de abril de 2008 às 12:18
Muito boa reportagem, seria até interessante algum curso para tradução na área médica. Com certeza tiraria muitas dúvidas.
segunda-feira, 14 de abril de 2008 às 20:10
Adorei o artigo!
A preocupação em se fazer uma boa tradução requer pesquisa e cautela.
Principalmente se tratando na área da Tradução Técnica.
quarta-feira, 9 de abril de 2008 às 11:19
Seria bem mais fácil se tivéssemos um glossário universal desses termos. rs.
Como foi dito, o Brasil incorporou muitos termos estrangeiros em seu vocabulário, não somente na área médica. Dentre outras podemos citar a área de informática.
Belo artigo!
quarta-feira, 9 de abril de 2008 às 10:12
Concordo com o Leandro. Artigo muito bom, com dicas importantes para pessoas novas no mercado. PARABÉNS!
Abraços.
terça-feira, 8 de abril de 2008 às 12:10
Muito bom. Esse fator acontece em várias áreas da tradução, mas na médica deve ser algo muito mais corriqueiro, já que diariamente há novas descobertas. Parabéns pelo artigo e obrigado pelas dicas ao tradutor amador.