Filmes falados são, em muitos casos, formadores de opinião e, em termos de linguagem, sempre nos ensinam algo certo ou errado. O problema é que quem desconhece as normas cultas de uma língua, ironicamente quase sempre se vicia com o errado.

Quando um filme conta uma história, não uma estória, é comum vermos “Based on real facts”, em português, “Baseado em fatos reais”. Existe algum fato que não seja real? “Baseado” não te lembra um cigarro de maconha?

Outro exemplo ocorre no filme Mickey Blue Eyes, estrelado por Hugh Grant, que se passa em um restaurante italiano chamado La Trattoria (em português, “O restaurante”). Em um dos diálogos, o personagem de Grant diz que encontrará sua namorada no The La Trattoria (literalmente, em português, “O O Restaurante”).

A redundância é nítida, pois “the”, em inglês, e “la”, em italiano, são artigos com o mesmo significado e desnecessariamente repetidos. Muitos preferem manter o artigo em sua língua e manter o correspondente na língua estrangeira quando o último fizer parte de um nome próprio.

Não discordo disso, mas de ouvir tanto pleonasmo e cacofonia, meus ouvidos me imploraram para discorrer sobre tautologia, que, na retórica, é a repetição desnecessária de palavras diferentes com o mesmo significado. Como vício de linguagem, pode ser considerada um sinônimo de pleonasmo ou redundância.

Temos que conhecer e confiar nas palavras e, mais importante, não disseminar vícios em nossas traduções ou redações.

Se em inglês o elevador está “going up”, em português ele só pode estar subindo, que já quer dizer “para cima”, pois ninguém sobre “para baixo”.

Um amigo tradutor de textos jurídicos, Vagner Bandeira, defensor da clareza nas traduções e redações, defende há anos que a tradução da frase “Including, but not limited to (…)” é pura e simplesmente “incluindo, entre outros, (…). Segundo ele, por que dizer “incluindo, mas sem limitação a (…)” se “entre outros” já impõe tal limitação?

Não caia no vício. Ao traduzir ou redigir, evite o uso desnecessário de repetições e lembre-se das palavras de Winston Churchill: “das palavras, as mais simples. Das mais simples, a menor”.

Veja abaixo alguns dos inúmeros vícios que vemos todos os dias:

  • Elo (de ligação): Elo serve para desligar?
  • Acabamento (final): Então quer dizer que acabou, mas não tudo!?
  • Certeza (absoluta): Existe meia certeza?
  • O preço é (por cada) unidade: “Por cada” não parece um monte de porcos? Não seria melhor “preço unitário”?
  • Duas metades (iguais): Como metades podem ser diferentes?
  • Surpresa (inesperada): se fosse esperada não seria surpresa
  • Possivelmente (poderá) ocorrer: Se poderá, é possível.
  • Plus (a mais): Primeiro, para que usar termo em inglês e, segundo, plus já é a mais.

Assim como vocês fazem na seção Pérolas de tradução deste portal, deixem aqui as suas contribuições de pleonasmos e cacofonias, mas lembre-se: só aqui, nunca na sua tradução ou redação.

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